Manual


Este livro foi originalmente publicado em 1998, pela Editora Filosoft, com 160 páginas, com o título de Manual da Separação. Nesta reedição, mantivemos o que antes havia, e acrescentamos 90 páginas de textos mais recentes, quase sempre provindos do meu blog Mude, e retornamos o título para Beijos no Céu da Boca. Mas, é preciso, antes de tudo, fazer uma importante ressalva: se você é uma pessoa ciumenta, poderá não gostar deste livro. Melhor nem comprar. Contudo, se algum ciumento anda te oprimindo, ou te aporrinhando, eu sugiro que você compre um exemplar e lhe faça um duplo presente: ele ficará mais saudável, e certamente mais interessante. E você até poderá tê-lo de volta ao círculo dos teus amores — e ao rol dos seres humanos.



Claro que neste livro eu não trato apenas do ciúme. Também discuto as demais relações opressivas, tanto na família, quanto em casa ou no trabalho. No fundo, são breves ensaios poéticos sobre Amor e Liberdade. Como já disse em outros locais, eu defendo o amor livre, desde que significando uma relação de plena liberdade recíproca. Para relações mais estáveis (principalmente se existem filhos menores envolvidos) eu proponho certas concessões respeitosas, muita responsabilidade, ética e transparência nos respectivos comportamentos, e também uma compreensão absoluta pelos desejos racionais do outro. Mas minha tese básica é esta: Se o amor não for livre, só pode ser amor preso.




E nada pode ficar acima da liberdade.
Nem mesmo a verdade!




Aristóteles Sócrates Kierkegaard é o meu nome, mas eu minto que é José Proença só prá impressionar. Sou um motorista metido a escritor: é por isso que tudo que escrevo parece filosofia de pára-choque de caminhão. Mas são artes do meu ofício: ninguém vai além dos seus limites: durante o dia, perto da polícia, não passo nunca de oitenta por hora. Mas à noite, sozinho na estrada da vida, ponho meu Scania inteiro na banguela, e vou a mil.




É um desperdício imperdoável ter um grande coração — e deixar nele um único amor.





Quando nos perdemos um do outro, ganhamos o direito de buscar de novo — um outro outro. Esse vácuo que se abre quando o outro se vai não deve ser nunca preenchido com restos de um passado que já não há. Esse espaço que o outro desocupou — até que enfim — agora é só teu. Cubra-o de paixões e de aventura.
Ela me olha, incrédula, quase assustada:
— Mas como poderei amar a perda, se o que perco é aquilo que eu mais amava?
— Gostei do ato falho: você disse “amava”.
— Mas eu amo ainda.
— E se separaram? Perderam-se um do outro, por quê?
— Divergências momentâneas... — ela me assegura.
— Aproveite a oportunidade: só a perda abre caminho para o novo.
— Ah, eu não gosto de perder — ela reclama.
— Troque: diga então “Só a separação abre caminho para o novo”.
— Mas também não quero me separar. Toda separação é dolorosa.
— Dolorosa para quem é fraco — eu digo.
— Você acha que sou fraca?
— Não importa o que eu acho: procure, você mesma, ver-se como você é de verdade. Quem se sente forte, é forte. Quem pensa que é fraco, é fraco.
Ela suspira e solta os cabelos. E diz: — tudo que eu tinha apostei nessa relação...
— Essa frase é muito manjada — eu retruco.
— Tudo que eu era coloquei nesse casamento — ela fala como se não tivesse me ouvido. — Na verdade o vazio não está fora de mim: está dentro de mim. Não foi o casamento que se esvaziou: fui eu que me enchi de nada...
— Gostei desse duplo sentido do que você disse: “fui eu que fiquei cheia de nada”. Linda metáfora.
— A questão não é de metáfora: trata-se de uma solidão que se aproxima sobre mim de maneira insuportável.
— Estou gostando... — eu digo olhando para ela.
— Gostando do quê?
— Das tuas construções verbais, das tuas palavras bem colocadas. Por que você não tenta escrever sobre essa fase da tua vida?
— Eu sempre gostei de escrever, mas desde que me casei tive que parar — ela fala. — Ainda éramos noivos e ele leu um caderno de poesias que eu tinha escrito: pensou que fossem dirigidas a outro homem. Pediu que eu o rasgasse...
— Teu futuro marido já era um estúpido — eu me arrisco.
— Estúpido, não — ela me corrige, defendendo-o.
— Ah, desculpe-me: teu marido era um gênio: só mesmo um gênio pode rasgar um caderno de poesias da pessoa que ele diz amar. Da futura esposa. Se quando ainda noivo ele já se mostrava imbecil, por que você levou avante o projeto? — eu atiço.
— Eu tava apaixonada — ela responde. E queria ter um filho dele – completa.
Sei que não tem filhos, mas resolvo não seguir por esse assunto. Mostro-lhe a garrafa inclinada e ela, sorrindo, consente com a cabeça. Levanta-se e abre dois botões da blusa.
— E teu marido, também apostou tudo nesse casamento? Ou vocês eram apenas dois loucos à procura de um fim?

Pausa para procurar o saca-rolhas.
E momento para eu ficar pensando um pouco sobre o acaso. Tem diálogo que também não tem fim, suponho. A gente tem que aprender a ler os sinais. Quando eu retorno da cozinha ela já está completamente nua – e a nossa conversa muda completamente de rumo.
(...)

Mas, no livro, essa história continua.




Com algumas mulheres,
tive um vislumbre
do pico do prazer.

Com outras,
atingi o pico.

Mas com você,
com você eu me transformo
no próprio pico:

essa, a principal diferença.



Sabe por que nunca vou me casar?
— Porque não quero foder a minha vida sexual.



Não devemos ficar muito impressionados com uma hipótese, só porque ela é nossa. Toda hipótese não passa de um pequeno passo no caminho do verdadeiro conhecimento. Temos que perguntar, sempre, por que uma determinada ideia nos agrada tanto. Temos obrigação intelectual de compará-la, imparcialmente, com as alternativas. É fundamental verificarmos se é possível encontrar razões que a invalidem. Se não fizermos isso, outros o farão — e nós seremos ultrapassados, vergonhosamente. O que nos deve interessar, antes de tudo, é a verdade, e não o nosso apego a certas conclusões que adoramos.



Ainda que a Inquisição tivesse queimado vivo Galileu Galilei, isso não faria com que o sol "continuasse" girando em torno da Terra. Os conservadores não entendem nada, mesmo. Nem de Alegria, nem de Ciência, nem de Luz ou Liberdade. Os estúpidos defendem aquilo que já morreu faz tempo, ou que morrerá em breve. Os conservadores, por isso mesmo, precisam ser autoritários. As ideias deles só se sustentam à força...



Este é um livro para aqueles que se amam.
Não é um manual: eu não escrevo para escravos.

Tem um subtítulo: Presente de Casamento — pois imagino que devesse ser dado a todos que ainda se arriscam nessa aventura irracional.

Eu quero é que vocês pensem.
Só isso.

Essas coisas todas, eu as escrevo para quem nasce, ou quer nascer de novo.
Para quem vive, e não para quem morre!

Na primeira vez, leia na desordem em que estão dispostos os capítulos.
Depois, leia em qualquer outra desordem.
Edson Marques.





O acaso.

Meu bisavô, aos sessenta e dois anos de idade, na década de trinta do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente cujo nome era Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O senhor Luiz Marques, afogado numa estabilidade quase sempre massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade. Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos inocentes despontando. Então o fazendeiro renascido abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções. Tudo por causa de Vitalina. Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor inexplicável, abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado.

Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante. Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida. Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida. Então o respeitável senhor Luiz Marques Santos tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.

Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho vermelho e contando essas coisas todas pra você.

Sou, portanto, bisneto da rebeldia. Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores. E existo, por incrível que pareça. No céu da minha boca não há fogos de artifício:
Só estrelas...



Nesta noite vitoriosa e de amor escandaloso a própria lua pára atônita no céu e nos assiste. Num voo imaginário de pássaro surpreso, meus doces lábios de morango tocam de passagem tua boca entreaberta: duas ou três gotas de champanhe caem no teu mamilo pontiagudo, parecendo uma chuva de cristal no Pico do Everest. Ajoelho-me ao teu lado, e teu corpo já não é mais apenas o teu corpo: é uma catedral. Como em liturgia, sussurro uma breve oração poética, uma prece de amor, e teu instinto felino salta por sobre os meus propósitos: as humanas emoções se instalam de repente, porque tua inocência é o maior afrodisíaco. O infinito brilho nos teus olhos me fascina, outra vez, e então concluo que viver não tem limite: sinto-me agora como se Deus derramasse mil flores recém-colhidas na minha cabeça. Só me resta beijar tua clavícula, meu amor. Tua clavícula...



Amar é permitir sempre,
amar é deixar que o outro vá.
Ou que fique, se assim o desejar.

Amar é ter um respeito absoluto
pela própria liberdade e pela liberdade do outro.

Amar é compreender sempre.
E isso não significa apenas
entendimento racional,
vai além, muito além:
amar é reconhecer afetuosamente
o direito que o outro tem
de fazer suas escolhas.

Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.






Casamento.

Casamento é coisa de gente ridícula. Casamento é coisa de pobres de espírito, miseráveis de espírito. Um recurso grosseiro que alguns infelizes adotam para sofrer em grupo. O casamento é antinatural. O casamento é o túmulo do amor. É a manifestação mais evidente da falta de criatividade de um certo tipo de gente que não sabe VIVER sozinha. É normalmente a junção irracional de dois dependentes, dois fracos que não sabem o que querem, pois quando sabem não querem, e quando querem não sabem. Provavelmente, se encontraram ambos tropeçando um no outro, sem lógica, sem razão, e sem critérios: não foi fruto de uma escolha consciente, mas obra do Acaso.

Estou me referindo, obviamente, àquele velho casamentão tradicional, rigorosamente monoândrico, monogâmico, monótono, fechadíssimo, inventado apenas para gerar crias e crises. E que sempre acaba em tragédia. Ou em tédio. É um horror.

Claro que também existe o casamento aberto, inteligente, ventilado, livre, moderno. Suponho, até, que nem devesse ser chamado de casamento, pois é uma união apaixonada e dramaticamente gostosa de dois seres humanos divinos, românticos e poéticos, não ciumentos, criativos, excitantes, amorosos, e compreensivos. Alem de amantes de si mesmos, brilham em dobro, porque amam a liberdade absoluta, a aventura consciente, e o risco incalculável. Este casamento é magnífico... Mas também acaba. E deve acabar porque é brilhante. Por amor!

Como o teu.
Como o teu será.
(ou já foi...)




Se Jesus fosse casado,
a Humanidade teria desperdiçado um Deus.



Como é belo sermos trapezistas nesse circo em que nossa vida se transforma! Às vezes estamos na corda bamba, às vezes fazemos papel de palhaços, às vezes rimos dos outros palhaços, outras vezes rimos de nós mesmos, e ainda muitas outras vezes enfrentamos as feras. Mas vivemos sempre lá em cima, trapezistas da nossa própria existência, bailarinos da nossa própria esperança. Muitas vezes tiramos até as redes de proteção para que o risco seja maior que o riso, para que nossos saltos sejam mais emocionantes e mais altos, para que a aventura seja ainda mais perfeita e mais profunda.

E se um dia nós voarmos de encontro ao chão, isso não terá nenhuma importância maior, porque também viveremos a emoção da própria queda. Quem cai por amor à vida, cai sempre para cima.

Em nome da vertigem, toda queda tem poesia.





O presente de casamento que eu quero te dar não pode ser comprado. Não existe em lojas: é o teu estado civil original. É como a saúde: só lhe damos valor quando a perdemos. Assim, a Liberdade. Teu maior tesouro é o teu estado civil original. Mas você o desperdiça de maneira fria, num ato solene, numa cerimônia... Numa cerimônia absurda onde você, cruelmente, sacrifica a própria liberdade no altar da tradição, da incoerência e da hipocrisia. Portanto, o presente de casamento que você merece ganhar já está dentro de você mesmo: é a estupidez. E se não houver mesmo outra saída, vá, enfrente!

É impossível ser feliz sem liberdade.





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